05 de abril de 2022

Educar para a solidariedade

Pe. Miguel Ramon

Quando surgem desastres naturais como enchentes, terremotos e deslizamentos de terra, que causam destruição e perda de muitas vidas humanas, as pessoas se sensibilizam e reagem imediatamente com ações de solidariedade. Calamidades de grande porte tocam profundamente no coração e mobilizam muita gente. Vimos um exemplo muito emocionante na forma como milhares de ucranianos são acolhidos nos países vizinhos e em outros mais distantes que abrem suas fronteiras para as vítimas da guerra genocida que se prolonga na Ucrânia. Não dá para ficar indiferente diante de cenas que são para cortar o coração.

Solidariedade, contudo, não devia se restringir a situações em que o ser humano é exposto na sua maior fragilidade, desprovido de tudo. Estas apenas revelam de forma contundente o que é a realidade constante de milhares de pessoas sem acesso à comida, educação, saúde e vida digna. As estatísticas oficiais da Unicef demonstram a cada ano como se aumenta o abismo da discrepância social entre os mais ricos e os mais pobres. Não é necessário descrever aqui mais uma vez a situação dolorosa de milhares de pessoas que passam fome, vivem nas ruas e morrem por falta de assistência médica. Ilustram como é necessário trabalhar para que a solidariedade se torne sempre mais presente no pensamento e nas ações de todos que se sentem sensibilizados pela dor e a exclusão social dos seus pares.

Seria ingênuo pensar que todo ser humano por natureza é solidário. Muitas pessoas têm dentro de si, incontestavelmente uma sensibilidade, que se manifesta em situações extremas como a guerra. As imagens chocantes da matança de civis inocentes na Ucrânia nos mostram até onde pode chegar a crueldade (des)humana. Cada guerra é provocada por homens que aparentemente ficam insensíveis diante da dor e da miséria do outro. São capazes até de lançar bombas em cima de hospitais e creches, matando doentes, crianças e mulheres grávidas. Infelizmente, esta mesma capacidade de fazer mal existe em cada um de nós. Em cada conflito armado se revela como continua vivo Caim, o assassino do seu irmão Abel. Temos nossas pequenas guerras, matanças e destruições. Soltamos bombas verbais e usamos armas de todo tipo para destruir a vida dos outros.

Diante deste quadro, podemos perceber como é importante educar para a solidariedade. Ela é essencial para uma nova proposta de sociedade em que todos possam viver bem, independentemente da sua situação econômica, do seu status social ou de sua capacidade intelectual. É urgente sair da indiferença, do preconceito e da qualificação do outro como de menor valor ou até desprezível. O grande remédio para esta dilaceração fratricida é a prática da solidariedade que nos aproxima do outro e o trata como merecedor de compaixão, ternura e amizade. Precisamos, portanto de modelos educativos que promovem a inclusão social e a formação integral de todos.

Esta educação se faz não de forma teórica, através de transmissão de conceitos, mas somente através da experiência da proximidade àquele e àquela que nos interpela a partir da sua vulnerabilidade. De certa forma é na fragilidade da outra pessoa que descobrimos a nossa própria debilidade e dependência da compreensão e da benevolência dos outros. De alguma forma todos somos interdependentes. Ninguém vive sozinho numa ilha. Desde o café de manhã até a luz que apagamos antes de dormir nos ligam a inúmeros intermediários que nos permitem vivenciar estes momentos deliciosos.

No encontro com a pessoa desprovida de qualquer prestígio ou status, descubro o valor da pessoa em si, que é também o meu maior valor. O caminho da solidariedade passa por experiências que nos fazem sentir e compreender que fazer bem ao outro faz bem a nós mesmos. É um caminho de humanização que muda o modelo imposto de só pensar em si, na própria competência, prestígio, poder e riqueza. É um processo em que posso aprender que eu me torno mais humano promovendo a humanidade do outro.

Em muitos processos educativos, na família e na escola, ainda somos vítimas de uma percepção individualista e competitiva da educação. Fortalece-se a ideia que tem que ser melhor e mais sucedido do que o outro, dá-se pouca atenção aos mais fracos. Importa, portanto, romper esta cadeia de crescente exclusão por atitudes e experiências de partilha, aceitação do diferente e valorização das diversas capacidades. Na família e no espaço educativo não se deve reproduzir o modelo de exclusão e de indiferença que caracteriza nossa sociedade. Pelo contrário devem ser espaços onde desde crianças aprendemos a sermos solidários e atentos aos que por vários motivos possam se sentir sós, isolados e pouco valorizados. É importante que a criança experimente desde pequeno que seu brinquedo não é só “seu”, que possa partilhar, doar e brincar junto com outras crianças.