17 de março de 2022

Educar para uma Vida Repleta de Sentido

Pe. Miguel Ramon

Vivemos em uma sociedade onde muitas pessoas perdem a alegria de viver. São alarmantes os números de suicídios, especialmente entre jovens. A maneira de ser e de pensar consumista tende a definir a essência da vida como capacidade de consumir. No pensamento de muitos e na propaganda constante de produtos sempre melhores, mais atraentes e mais sofisticados, divulga-se a ideia de que uma pessoa existe e tem valor à medida que consiga comprar coisas. Abala muito a autoestima de quem não tem dinheiro para adquirir o que os outros (supostamente) conseguem. Perde-se facilmente o encanto da vida. Viver para que?

A crise do coronavírus aumentou sensivelmente o número de pessoas que se viram incapazes de comprar até às vezes o essencial para sobreviver. Aumentaram os dramas familiares de pais e mães que nem têm o que dar de comer a seus filhos. As poucas possibilidades de acesso a um emprego só aumentaram as tenções e as brigas nos lares, ainda fortalecidas pelo fato que, com as restrições à saída de casa, as pessoas ficaram mais tempo juntos, dividindo o mesmo espaço. Isso gerou especialmente fortes tenções entre adolescentes e seus pais ou pais adotivos. Muitos adolescentes, e até crianças não aguentaram a pressão e pensaram em se suicidar.

Não somente o público juvenil, mas um número considerável de adultos também perdeu o rumo da sua vida. Não conseguiram mais enxergar um futuro promissor. Entraram no desânimo, no stress e no desespero. Nada a estranhar que psicólogos e psiquiatras têm uma agenda cheia para atender seus pacientes. Aumentaram igualmente os programas de autoajuda e de autoconhecimento. Várias correntes religiosas apostam na mesma necessidade afetiva para organizar cultos e celebrações que possam corresponder a este anseio de bem-estar emocional e psicológico. Oferecem uma certa segurança diante das múltiplas incertezas e desequilíbrios que a complexidade da vida oferece.

O verdadeiro sentido da vida, contudo, não se encontra na autorreferência. Especialmente para os cristãos, este se encontra no esquecimento de si mesmo e na doação ao outro. Jesus nos ensina que só o grão que morre pode produzir frutos. Ele mesmo vivenciou esta verdade com sua própria morte. Este ato de supremo amor foi coroado pela Ressurreição. É aqui que o cristão encontra a maior motivação e a força para dar um sentido à sua vida, bem diferente do modelo consumista que sempre leva à frustração dos desejos insaciáveis. A proposta de Jesus é que renunciando a si mesmo, encontra-se a vida em plenitude. Isso não é uma bela ideia ou um propósito pouco realista, é algo que podemos experimentar no dia a dia em enumeras experiências de felicidade quando conseguimos partilhar amor e ternura com quem convivemos e encontramos pelas estradas da vida. Experimentamos nas tantas situações de morte que podemos transformar em vitórias e novas oportunidades.

Este caminho de doação aplica-se de maneira especial nos processos educativos entre pais e filhos como também, em outros ambientes, entre educadores e educandos. Na educação é fundamental que esta experiência de respeito e amor mútuo estejam no centro. Educar vai muito além de repassar conhecimento. É bem diferente do que preparar pessoas para se adaptarem a uma sociedade de concorrência e supremacia, reproduzindo os mesmos modelos que sustentam nossa sociedade injusta e excludente. Ela é essencialmente um processo de relacionamento, onde o educador conduz (guia de um lugar para outro) o educando para que este possa se tornar a pessoa realizada e feliz. A educação integral da pessoa não é possível sem percorrer a trilha do amor que permita que o educando descubra que o maior tesouro que possa receber como sentido para sua vida é amar e ser amado.