20 de dezembro de 2021

Nasceu para nós um menino

Pe. Miguel Ramon

Nasceu-nos hoje um menino
E um filho nos foi dado
Grande é este pequenino
Rei da paz será chamado.


Assim começa um belíssimo canto de Reginaldo Veloso. Já faz mais de 2020 anos que lá em Belém nasceu Jesus numa gruta, pobre no meio de gente pobre. O divino escolheu se tornar humano, começando sua trajetória a partir de onde ninguém esperava algo excepcional. A história sem efeitos natalinos é tão simples, mas por isso mesmo talvez tão emocionante. Parece que temos ainda dificuldades de entender quão grande é este mistério de um Deus que vem assumir seu lugar no meio dos esquecidos e banidos do mundo dos poderosos, instalados nos seus palácios.

O nascimento deste menino não é um conto de fadas. Não está deitado numa manjedoura de ouro, nem nasce numa casa bem aquecida, não houve enxoval abundante. Não é um espetáculo cheio de luzes e brilhos. Toda a beleza da cena está na sua simplicidade. A grandeza do evento está na sua pequenez. Somos convidados a contemplar este casal de pessoas humildes, que vem da periferia em busca de um abrigo, batendo em vão nas portas de um albergue que pudesse acolhê-los. Difícil não pensar em tantas famílias de refugiados, expulsos e fugindo das suas terras, barrados nas fronteiras de países que se fecham no próprio conforto e indiferença.

Graças a Deus nem todo mundo fica insensível diante do sofrimento dos outros. O clima natalino ainda ajuda a despertar nos corações gestos de solidariedade. A cada ano se repetem as campanhas por um Natal sem fome. Infelizmente, por causa da Pandemia e de políticas públicas desastrosas, aumenta o número de pessoas que não têm o que comer. As estatísticas oficiais são assustadoras. As enchentes no Sul da Bahia e em Minas Gerais aumentaram o número de desabrigados. Mas gestos concretos de partilha com os mais necessitados nos enchem de esperança que ainda é possível sonhar com um mundo de fraternidade e de paz. Podemos repetir o canto dos Anjos, anunciando o nascimento de Jesus aos pastores: “Paz na terra aos homens por Ele amados.”

Os pastores representam todos os excluídos da sociedade opulenta e autossuficiente que não deixa entrar na cidade e afasta das festas os que são considerados pessoas que cheiram mal e são malvistas.

A cada ano se ofusca mais um pouco o verdadeiro sentido de Natal. O consumismo e a comercialização de produtos natalinos substituem o menino Jesus. O mistério de um Deus que se faz homem e inicia sua caminhada com a humanidade no meio dos pobres fica na sombra de uma cultura que só procura grandeza, ostentação e satisfação dos próprios desejos.

Até em ambientes religiosos esconde-se o impacto do escândalo de um Deus sem poder e glória, estendendo os braços para quem possa acolhê-Lo na sua pequenez. Foge-se para o incenso e a vangloria de cultos sem nexo com a vida dos pobres para evitar a realidade carnal de um Deus que está no meio de nós e que pode ser tocado em cada pessoa humana, especialmente nos pequenos e fragilizados. É importante compreender que o menino Jesus, como em Belém, estende as mãozinhas e chora para ser alimentado em cada pessoa que pede por socorro e caloroso afeto. Ele nasce para nós para que possamos acolhê-Lo, tocá-Lo e abraça-Lo.

Nasceu e nasce para nós um menino. Feliz Natal!