18 de junho de 2021

Pedagogia Espiritual

Pe. Miguel Ramon

Cada pessoa, conforme a própria fé e a espiritualidade que vivencia pode expressar sua religiosidade de várias formas. Todas devem ser respeitadas. Mas vale a pena refletir sobre os impactos que cada profissão de fé tem sobre a própria vida, a convivência com os outros e os compromissos para colaborar na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Neste sentido não basta mandar mensagens bonitas no Facebook, no WhatsApp e através de outros meios de comunicação social. Sempre há de se perguntar o que isso significa na vida concreta.

Estamos vivendo tempos interessantes em que lideranças políticas e religiosas se referem a passagens bíblicas para sustentarem posições e comportamentos que são o contrário daquilo que a própria Palavra de Deus ensina. Mentir e enganar as pessoas com frases bíblicas tiradas fora de contexto, aparentemente não causa espanto, mas até suscita adesão e aplausos. O sonho de uma teocracia como o modelo de governo no Iran onde os aiatolás ditam a vida pública parece alimentar muitas mentes, ansiosas por poder. É sempre muito perigoso quando são usados argumentos bíblicos para sustentar o próprio poder. Em nome de Deus foram cometidas as maiores atrocidades e ainda hoje em seu nome são perseguidas, torturadas e assassinadas milhares de pessoas.

Neste contexto é de suma importância sublinhar a necessidade de uma renovação espiritual que se baseie em uma autêntica leitura dos textos bíblicos e da consequente vivência da fé. É necessário formar-se adequadamente para não ler textos sem noção do contexto e da mentalidade do tempo em que foram escritos. As pessoas de três mil anos atrás não tinham a visão e o conhecimento do mundo e do ser humano como a ciência nos revela hoje. As Palavras da Bíblia também não foram escritas somente para animar e orientar minha vida pessoal. Por isso é necessária uma verdadeira pedagogia que ajuda a pessoa sair da autorreferência.

A palavra pedagogia é derivada de duas palavras gregas: pais(criança) e agein (conduzir). Pedagogo é aquele que conduz, educa a criança. No caso da espiritualidade cristã, quem conduz e educa é o Espírito. É Ele que move as pessoas para que se coloquem na direção do Reino de Deus. É Ele que capacita o cristão a continuar a vida e missão de Jesus.

Para sermos conduzidos por Ele, precisamos adquirir a qualidade de criança com a vontade de aprender e de se deixar conduzir. Jesus já nos disse que precisamos tornar-nos como crianças para podermos entrar no Reino dos Céus. Não significa que devemos ter atitudes e comportamentos infantis. Somos chamados a darmos respostas ao Amor de Deus como pessoas adultas e responsáveis, deixando-nos conduzir pelo Espírito. Só Ele é capaz de nos libertar do egocentrismo, de operar a verdadeira cura e a libertação da autorreferencia tanto em nível pessoal, como comunitário e social. Só teremos uma vida cristã seguindo o Espírito Santo que conduziu Jesus durante toda a sua vida.

Foi este Espírito que Jesus espirou na cruz e que transmitiu aos discípulos, soprando sobre eles depois da sua Ressurreição. Importa, pois, promover uma pedagogia espiritual que nos ajude a seguir Jesus na própria vida para produzir nela os frutos do Espírito, atos e obras de amor. Fora uma vida de amor e dedicação, especialmente aos mais pobres e sofridos não há espiritualidade cristã. A pandemia do Coronavírus nos ajuda a entender melhor o que significa dar a vida para salvar vidas. Tantos médicos, enfermeiros e pessoal de apoio nos hospitais e nos postos de atendimento nos deixam exemplos extraordinários. Ao mesmo tempo nos mostram muito claramente que o centro da vida cristã não são templos e igrejas. Infelizmente revela também como é fácil criar ilusões, enganar e fugir da realidade para mundos imaginários e perversos que sob pretextos “evangélicos” ignoram o sofrimento dos outros e visam especialmente interesses financeiros e de poder, propagando até remédios totalmente inúteis, negando a necessidade de medidas protetivas como uso de máscara e distanciamento social assim como provocando aglomerações, inclusive em templos e igrejas.

Faço votos que continuemos na Acopamec movidos pelo Espírito de Jesus que ajuda a doar-nos para que crianças, adolescentes, jovens e suas famílias, especialmente as que mais sofrem as consequências do Coronavírus, possam viver mais dignamente. Apesar de muitas restrições ainda temos possibilidades para fazer o bem.