18 de abril de 2022

Viver como ressuscitados. (parte1)

Pe. Miguel Ramon

A cada ano os cristãos celebram a Páscoa, momento especial em que comemoram a Ressurreição de Jesus Cristo. Mas o que se entende por ressurreição? É uma palavra muito usada em vários contextos, também fora do âmbito cristão, onde significa levantar-se, ficar de pé, voltar à vida depois da morte. Muitas vezes se torna sinônimo de transformação, vida nova, recomeço.

Os primeiros cristãos entenderam que Jesus tinha superado a morte e continuou vivo no meio deles. O que importa para eles é a experiência da presença constante daquele que tinha sido condenado à morte na cruz. Jesus, que aparentemente fracassou na sua missão, condenado por blasfêmia e escandalosamente crucificado entre malfeitores, se mostra como aquele que é fonte de Vida e de felicidade para o ser humano. Seguindo-o encontramos bem-estar e paz. O caminho que ele propõe conduz à plena realização das aspirações mais profundas. Leva em última instância até a transformação total da pessoa no abraço eterno do Pai. Nele abrem-se as portas para uma vida plena, superando as barreiras da morte.

Os autores bíblicos do primeiro século usam basicamente duas pistas para nos falar desta presença nova de Jesus, não mais corporalmente tangível como no tempo das suas andanças pela Galileia, mas nem por isso menos presença real. Em primeiro lugar eles sublinham que ele não ficou no túmulo. Este está vazio. O corpo do passado não tem mais nenhuma importância. Não há por que buscar Jesus no túmulo. Ele vive agora em uma dimensão totalmente diferente em plena comunhão com seu Pai. Os discípulos poderão “vê-lo” não no lugar onde foi sepultado, mas voltando à Galileia, onde iniciaram sua caminhada com ele. O que alimenta a fé não é uma prova verificável da ausência de um corpo. Aliás a este desaparecimento do corpo podiam se dar diversas explicações. Os Fariseus, por exemplo contaram que o corpo tinha sido roubado. O que interesse agora para a comunidade dos cristãos é o corpo glorioso, a presença do Cristo Ressuscitado.

Outro caminho para falar da ressureição são as narrativas das aparições. Vale destacar que em todas elas os autores têm a preocupação de unir dois elementos aparentemente contraditórios. Querem afirmar que o Ressuscitado é o mesmo Jesus que viveu antes no meio do seu povo. É ele que foi morto e crucificado. Nunca há uma ruptura total com o Jesus que os discípulos tinham conhecido e, especialmente sua intimidade profunda com seu Pai. Ele aparece com as marcas das torturas nas mãos, no lado e nos pés. Ele não é um fantasma, come pão e peixe com os discípulos. Ele se deixa tocar por eles. Por outro lado, é totalmente diferente: passa por portas e janelas, não é mais sujeito ao tempo e ao espaço. Passa por todas as leis físicas que conhecemos. É difícil de reconhecê-lo, parece se confundir com outras pessoas, como um jardineiro. Seu corpo não é mais o mesmo como antes. Sua ressurreição não é simplesmente uma volta à vida passada. O Apóstolo Paulo fala de um corpo espiritual. Esta presença nova de Jesus é antes de tudo uma experiência de fé. O corpo glorioso de Jesus somente pode ser “visto” para quem já viveu de alguma forma uma intimidade maior com ele, ainda no seu corpo mortal. Todos podem ser testemunhas da vida pública de Jesus, das suas palavras e dos sinais que realizou. Sua condenação, seu sofrimento e sua morte na cruz eram fatos públicos, acessíveis a todos. Suas aparições não são para todo o povo, só acontecem para um número restrito de testemunhas.

Estas breves reflexões a respeito do entendimento da Ressureição de Jesus nas primeiras comunidades ajudam a introduzir o que me parece mais importante: a presença atual do Ressuscitado. A narrativa e a fé na Ressurreição não devem nos fixar num evento extraordinário e milagreiro do passado. É ver os sinais do Ressuscitado sobretudo no presente, ver a realidade com seus desafios e dificuldades e “crer” que em Cristo é possível enfrentá-los e vencê-los. Mais do que um olhar para o passado da vida, morte e Ressurreição de Jesus, deve nos dispor a percorrer o caminho que ele propôs para ter excito na vida presente e e sua plena realização na eternidade junto de Deus. Ela, antes de tudo, nos orienta na nossa vida cotidiana em que devemos viver como pessoas ressuscitadas.